08 abril 2015

"Misteriosa"



As pessoas sempre gostaram muito de mim. Quero dizer, mais do que gostavam das outras pessoas. Os professores facilitavam pra mim, meus colegas me ofereciam seus cadernos sempre que eu precisava, e até mesmo vendedores de lojas me davam produtos grátis.
Eu nunca entendi o motivo.

Quero dizer, eu sempre fiquei muito na minha. Mal conversava com os outros, e nunca gostei de externar os meus pensamentos ou sentimentos. No máximo te dizia qual era a minha cor favorita, e olhe lá.
Eu sempre fui a garota comportada, que tira boas notas. Nunca chorei perto de ninguém, e as pessoas passaram a pensar que eu nunca ficava triste. Nunca demonstrava a raiva que estava sentindo, e elas de repente começaram a acreditar que eu nunca ficava com raiva.
As coisas evoluíram. Quando eu não conseguia me segurar e chorava, as pessoas me repreendiam – “nossa, que besteira, você não pode chorar por causa disso, você nunca chora” e “uau, ficou com raiva só por isso? Que fútil”. Elas se acostumaram a me ver tipo um anjo, mas eu nunca fui isso.
Eu acho que é meio que besteira, mas acabei entrando nesse ritmo. “Pareça um anjo”, dizia o meu subconsciente. E eu fui acostumando as pessoas a pensarem assim.

Um dia desses, eu estava falando com uma pessoa. Disse a ela que estava com vontade de me abrir mais, dizer para as pessoas todas aquelas coisas que nunca tive coragem. Demonstrar que eu sentia raiva. Que eu ficava magoada às vezes. Dizer à todos qual é a minha religião, por mais discriminada que ela seja. Parar de esconder de todo mundo o fato de que eu sei passar tarô. Contar para as pessoas quando eu gosto de alguém, levantar a mão em sala de aula quando estão falando de um assunto polêmico. Me expor. As pessoas sempre dizem que não querem se expor, mas quando você evita isso desde o nascimento, fica cansada.
A pessoa me olhou de um jeito estranho. Ela disse: “ah, mas aí você deixaria de ser misteriosa, desse jeito legal que você é”.
Eu fiquei com raiva. Porque ninguém que eu conheço é “misterioso” desse jeito, e eles são legais.

As pessoas só gostam de mim porque não me conhecem.
Isso é tão deprimente.

Elas gostam de mim porque eu pareço um anjo. E elas querem que eu seja um anjo, mas eu só quero ser humana. É só isso que eu quero. Parecer melhor e superior que os outros me frustra.
Eu decidi que vou parar com isso. As pessoas não têm que decidir por mim o que eu devo ser. Porque eu sou humana, e tenho direito a tudo isso que eu falei acima, tanto quanto os outros.
Não interessa se eles não gostarem. Não interessa se eu vou sofrer, sei lá, com algum tipo de preconceito ou coisa assim. Porque eu estou no meu direito.

Deuses, eu estou com medo de fazer isso.
Mas eu não vou mais voltar atrás.


Ai, droga, eu sou horrível fazendo textos pessoais. Me sinto meio idiota, mas é só besteira minha, né? Eu vou melhorar. Eu vou conseguir fazer isso mais vezes.

9 comentários:

  1. eu tambem sou assim, quero falar sobre mim mas sou péssima, nunca acho as palavras mais corretas e mais bonitas, e como se elas fugissem toda vezes que eu tendo me entregar a minha existência sobre elas ^^

    Com carinho, Hina | Aishiteru em Contos |

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  2. Acabei de conhecer seu blog e, SIM, faça mais posts como este!
    Gostei muito do jeito que vocês escreve scrr, e me identifiquei bastante com o texto. As vezes eu queria me expor mai, mas, por mais idiota que pareça ser, acredito que por eu ser capricorniana, um signo racional eu costumo pensar muito antes de agir daí sempre perco a oportunidade de dar minha opinião, sabe? Triste isso D:
    Mas olha, não volta atrás mesmo não ♥

    bjbj
    Visita nosso blog? Estamos começando e tals hehe http://poloopia.blogspot.com.br/

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  3. Seu texto me descreveu, querida.
    "Nunca chorei perto de ninguém, e as pessoas passaram a pensar que eu nunca ficava triste." Minha mãe acha isso, minha própria mãe, dá para acreditar?
    Nunca fui profunda, sempre fui a margem, a beirada de algo ou um caminho que ninguém queria pegar pq já achava que conhecia demais.
    beijos

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  4. Eu sou tipo, super otimista, o tempo todo, porque eu meio que acostumei à demonstrar o que sinto sorrindo. Então as pessoas meio que me associam à essa pessoa que você pode irritar e ela nunca vai ficar realmente irritada, e eu não fico.
    As pessoas me veem como alguém de mil faces, eu aparento ser a representação humana da fofura, mas quem me conhece sabe que eu sou quem "manja das putarias", e quem me conhece mais ainda sabe que eu sou super besta.
    Mas o fato é que eu adoro todo mundo, todo mundo me adora, e em todo lugar que eu vou eu sou aceita, com meus amigos que sentam na frente, os que sentam nos cantos pra dormir, os que sentam no fundo pra conversar, todo mundo mesmo ashuashu.
    P.S.: Se eu gosto de ser tratada assim? Não, eu amoooo.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Oláaa Ágata!!
      Adoro textos pessoais, assim posso saber mais sobre a vida das autoras. Bem, acho que nessa parte estou bem parecida com você, as vezes eu gostaria que parassem de me tratar de forma que acham que me conhecem. Meus amigos são os piores, mas amo eles. E a minha própria mãe acha que sou a mais forte dos irmãos, quando na verdade sou a que mais me preocupo, a que mais perde tempo tentando solucionar problemas idiotas... não sou a mais forte, sou a mais fraca, mas acho que ninguém sabe disso e mesmo assim fingem me conhecer.
      Sabe o que você deve fazer? Você deve parar de se preocupar e contar para quem você tiver vontade de contar que você é wiccana e que você passa tarô e que o problema é seu, só seu (olha quem fala, a menina que não sabe como contar para a mãe que é ateia. É, eu sou toda errada também, tenho que tomar vergonha na cara e contar logo!!). Eu sei que falar é fácil, mas essa é a verdade, não podemos simplesmente viver pensando no que os outros irão pensar, até por que a ciência ainda não nos possibilita viver por muito mais de 100 anos ainda, então viva sem pensar no que fulano vai pensar, pois 100 anos passam muito rápido. E já que você tocou em religião, por que você não faz alguns posts falando sobre a Wicca? Eu adoro aprender sobre países (consequência de amar Geografia) e religião (consequência de amar História)
      Chu ~ http://auwss.blogspot.com.br/

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  6. Sabe, me identifiquei com o texto. Serio mesmo.
    Todas as pessoas que conheço (Pessoalmente :p) dizem que sou muito inteligente, e falando a verdade, eu sou mesmo. Mas eu tenho que ralar para conseguir boas notas, e as pessoas parassem que acham que eu tenho essa inteligencia de nascença.
    Mas ninguém nasce sabendo, e, sempre que eu não sabia alguma coisa, as pessoas ficavam impressionadas, claro. Já que eu era "inteligente" , achavam que eu não tinha tantas dificuldades.
    Outra coisa é que sou meio explosiva, e não gosto quando as pessoas zombam de mim. E, quando elas zombam, eu meio que transformo minha linguá em um chicote, e acabo falando poucas e boas.
    Mas, eu não faço isso por impulso, agora, eu sou mais calma, mas ainda me defendo de um jeito menos explosivo. E poucas pessoas veem meu lado sensível, que gosta de carinho e ter alguém para falar sobre interesses em comum. Porque, sempre fui vista como corajosa, aquela garota que enfrenta os problemas na cara.
    Claro que isso tem la sua verdade. Sou corajosa e enfrento problemas, mas as vezes fico muito frustada e recuo, e depois enfrento com muita determinação. E falando sobre ser sensível, eu apenas demonstro com pessoas que realmente acho que merecem ter meu afeto.(Minha amiga ana, e isso mesmo tu, Aggy.)
    Meus melhores amigos sabem um pouco disso, e respeitam e tal, meus parentes nem falo.
    (E falando sobre religião :v)Sempre ouvi falar sobre Wicca, e simplesmente gostei muito, e pode acreditar, não tenho uma religião exata, mas gosto de muitas. Cada religião mais interessante que vejo por ai.

    Kissus ♥♥♥ (Fazer mini textos pessoais é horrível pra mim)

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  7. Me identifiquei bastante com o seu texto, Ágata e admito que já fui assim também, só que pelo menos pra mim era muito ruim tem hora. Eu sempre vivia sonhando com as vidas de filmes porque eu amo cinema só que a realidade é completamente diferente. Cheguei a um ponto que decidi começar a ser eu mesma e fodas quem não gostava de mim.
    Gostei bastante do post e do blog, vou acompanhar sempre que puder!
    Nova seguidora (:

    http://makingcolorfilm.blogspot.com.br/

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  8. Sempre tem aquela pessoa que julgamos perfeita. Mas ela não é. É humana. Como eu, você, a tia da cantina e a rainha da Inglaterra. A questão é, temos sentimentos e não podemos reprimi-los. Não seja a misteriosa, não deixe que um rótulo lhe prenda a um personagem. Seja você. Se liberte. Isso é o que faz valer a pena estarmos vivos, entende?
    Lindo blog, adorei aqui ~

    m-yung.blogspot.com

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