04 junho 2015

Sonho



Movo-me nas sombras, transformo-me nelas. Deslizo suavemente com a brisa, escondendo-me de mim mesma. As pontas finas de meus dedos tocam suavemente os pensamentos ao redor.
Sei que sonho. Sei que o mundo ao meu redor é ilusão. Uma música barulhenta toca ao fundo, e por vezes lembra mais um chiado ou o canto tímido dos grilos. O ambiente ao meu redor muda. Ora é o breu, ora é água e ora há grama sob meus pés.
Caio. Um tropeço de sonho, e então despenco no infinito, os braços agitando-se no nada. Flores de pétalas felpudas lambem meus cabelos. Um grito corta o ar, fino, e decididamente não meu.
Repentinamente, estou de pé. Posso sentir um vestido apertado cobrir meu corpo, e aquilo me incomoda. Sinto vontade de tirá-lo. Vozes ao meu redor, conversando animadamente, mas estou sozinha, num quarto trancado.
Ando até uma cômoda, e abro sua a primeira gaveta. Há um cristal ali, e, de alguma forma, sei que é uma chave. Coloco-o no bolso do vestido. Estou sentada no batente da janela, prestes a fugir, meu corpo pende para trás...
 Alguém me segura, enquanto corremos desesperadamente. A paisagem ao meu redor é a de uma floresta. Corro muito, a ponto de nem sequer distinguir as copas das árvores ao meu redor, mas não estou ofegante.
Sou um gato, correndo pela selva. O cristal, de alguma forma, está comigo. Alguém corre ao meu lado, um homem alto. Estamos quase chegando, falta pouco... Nossa missão será completada em breve...
Um apito. De trem. Meu coração acelera, olho em volta, a floresta num borrão, tenho uma sensação horrível de estar inquieta...
Sacudo-me muito, e abro os olhos, desorientada. As cobertas estão todas no chão, e o trem que fica há alguns metros de casa apita. Solto um som contrariado – ele havia acordado-me, novamente, na melhor parte do sonho.
Viro para o lado e volto a dormir.
Quem sabe não continuo de onde parei?
Isto é uma crônica, não uma experiência real. Até porque, aqui em casa, o trem passa lá longe, no horizonte, e o barulho não é tão alto a ponto de acordar alguém...

7 comentários:

  1. o texto esta lindo, voce tem uma escrita muito suave e delicada ^^

    Com carinho, Hina | Aishiteru em Contos | MelanCria Html |

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    1. Obrigada! ♥ Fico muito feliz por saber que você gostou!

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  2. Ah, que delícia de conto! Muitíssimo bem escrito. Eu pude me sentir na pele da protagonista e dentro de seu sonho, passando pelas mesmas cenas entrecortadas e intrigantes pelas quais ela passou e experimentando suas mesmas sensações.

    Se a pergunta não for muito invasiva... em que cidade você mora? Pela qual passa um trem? É em Minas? Não sei por que, tenho para mim que é em Minas...

    O Único Jeito

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    1. Muitíssimo obrigadinha! ♥ É tão bom saber que você gostou, e que eu consegui passar a mensagem que eu queria. ♥

      Eu moro em Minas, sim... xD Atualmente estou morando numa cidade chamada Antônio Carlos. Mas eu nasci na cidade vizinha. -q Tem uma estação aqui... Não é um trem para pessoas, sabe, são trens de carga, mas eu adoro ouvir aquele barulhinho... ♥

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  3. Suas palavras soam tão bem na minha cabeça, o seu modo de escrever é encantador. Juro a ti que parecia que eu estava lendo uma página de um livro e ao mesmo tempo vendo uma curta metragem. :)

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    1. Obrigadinha! ♥ ♥ ♥ Me deixa muito feliz, saber que a minha crônica causou esse efeito em você. ♥

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  4. Ah, que linda escrita você tem... É algo característico, tenho certeza. O jeito como tudo é descrito faz com que me imagine na pele da narradora, em cada cena detalhadamente imaginada sob sua orientação... Céus, eu realmente adorei cada detalhe. ♥

    Carinhosamente, Jheni.
    q u i n z e o u t o n o s*.

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