06 julho 2015

Querido antigo eu



Querido antigo eu,

Minhas memórias falham. Tantos anos atrás, o que você esperava de mim? Será que ficaria decepcionada ao descobrir quais decisões eu tomei?
Na verdade, eu meio que te vejo como um bebê. Me desculpe, mas isso não vai mudar, ainda. Se antes era um bebê, então agora sou uma criança, e toda a sua sede por amadurecer rapidamente não serviu de nada. Eu fui idiota em muitas situações, e peço desculpas por isso – te privei de muitas coisas que você desejava. Tenho plena consciência disso, e sei que você vai ficar muito magoada comigo, mas não me arrependo. Embora eu não consiga ver o fim de tudo isso agora, sei que todas as minhas escolhas acabarão resultando em algo satisfatório – talvez não o que você havia planejado, mas, ainda assim, o suficiente para te fazer feliz. Apenas confie em mim, seu eu do futuro, tão confuso e distante quanto você sempre foi.
Tudo mudou tanto, e está tão estranho. Acho que você não acreditaria em mim, se eu te contasse. Eu descobri que as coisas tem o poder de mudar drástica e bruscamente em muito pouco tempo, de um jeito que chega a assustar. Mudanças repentinas sempre foram difíceis para nós, não é mesmo? Sempre fomos lentas. A adaptação rápida só vem com o desespero – coisa que, convenhamos, não somos muito dadas a sentir.
Olhando para trás, sinto vontade de te abraçar. Um abraço muito apertado, com direito a afago no cabelo e palavras carinhosas. Odeio pensar que você vai passar por um monte de coisas, e não vai querer ninguém por perto – nem mesmo eu – para te ajudar. Isso vai te prejudicar, sabia?
Mas você não pode, nem nunca vai, ler esta carta. Não estou arrependida de nada que fiz; mas gostaria de livrar-lhe do sofrimento. Você não é diferente de ninguém, porém, e deverá passar por todas essas coisas.
Pergunto-me se meu eu do futuro pensa em mim desta maneira. “Pobrezinha, queria poder ajudá-la, dizer-lhe que está fazendo errado.” Desde sempre, confiei apenas em mim mesma, coisa que você pode confirmar. A menos que tais conselhos venham de mim, não poderei aceitá-los. Somos ridiculamente retraídas e orgulhosas, não é mesmo?
Bem, embora seja cercado por espinhos e quase inacessível, o jardim que plantamos tem rosas bonitas e trepadeiras muito verdes. Mas apenas plantas baixas, porque sempre detestamos coisas que tampam o céu. Estou pensando em plantar girassóis, também, mas isto terá de esperar um pouco mais.
O tempo está acabando, e eu preciso ir. De consolo, digo-lhe que, muito em breve, tudo estará bem. Eu darei um jeito no seu futuro, e então você não terá mais que sentir medo de nada. Quando você tiver crescido o bastante, terei derrubado a cerca de espinhos, e tudo o que restarão serão rosas e riachos e margaridas e jasmins e estátuas de anjinhos fofos.
Com amor,

Seu futuro eu

2 comentários:

  1. *-------*
    Ain, até me emocionei, esse texto tá lindo, me vi muito nele. Se eu pudesse falar com meu antigo eu diria algo parecido com o que acabei de ler. Amadurecer não é nada fácil, mas é preciso. Amei <3

    horadochoco.blogspot.com

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  2. Texto lindo, parabéns.
    Tem dias que me pego pensando se minhas novas escolhas seriam aprovado pelo meu antigo eu. Sei lá, mudei tanto, gosto de tantas coisas que antigamente não gostava ou acharia loucura se gostasse e ao contrario também, hoje já nem ligo para tantas coisas e antigamente ''adorava''... É assim a vida.
    <3

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