29 setembro 2015

Laranja – A Teoria do Caos



Quando o despertador toca, dou-lhe um tapa, fazendo-o cair no chão com um ruído alto. Troco de roupa com os olhos ainda meio fechados, calço o tênis esquerdo no pé direito e quase uso pomada no lugar da pasta de dente. Como uma torrada na velocidade da luz, escovo os dentes outra vez – desta vez sem erros – e saio correndo porta afora.
O laranja do nascer do sol sorri para mim. Ele pulsa nas paredes das casas, na grama sob meus pés, nos rostos dos meus vizinhos e colegas – e em mim mesma. Tudo parece alegre e fresco, graças àquela cor.
Encontro minhas duas amigas no caminho e comento aquilo com elas. Lúcia ajeita o prendedor de cabelo e comenta:
– Na cromoterapia, laranja influencia a segunda-feira. É a cor da intelectualidade, do paladar e do verão. É tida como antidepressiva e alegre.
Helen ri e dá um soquinho de brincadeira no ombro de Lúcia. Nós rimos. Lúcia adora fazer comentários intelectuais, então eu digo que laranja deve ser a cor dela. Ela responde com um “não, é amarelo” que faz Helen ter um ataque de risos.
Os rostos das duas estão sendo banhados pelo laranja do nascer do sol. Com um sorriso, concordo secretamente – laranja, a cor da alegria.
Meus olhos captam um rosto que nunca vi antes. Uma garota curvada sobre si mesma, usando o uniforme da nossa escola. Está de costas para nós, de forma que só consigo reparar em seu cabelo negro, curto e sedoso, que balança suavemente conforme ela anda. Banhado de laranja.


A garota do cabelo curto, preto e sedoso chama-se Marta. Ela está na nossa sala. Faz três dias que ela foi transferida e ainda não falou com ninguém. Na verdade, só ouvi a voz dela umas duas vezes, quando a professora de português pediu-lhe para responder uma questão. Ela parece ser boa em quase todas as matérias.
Ela sempre abaixa a cabeça quando alguém olha pra ela, mas consegui perceber que tem olhos castanho-claros bem amendoados. E uma pintinha preta perto do lábio inferior.


– Você gosta de filmes de ação, então?
A pergunta vem de Helen. Ela acaba de surpreender Marta segurando um ingresso para um filme “muito massa” que está em cartaz no cinema.
Faz duas semanas que nos conhecemos, mas ela não parece nada à vontade. Estica um sorriso nervoso para nós, balbucia “sim” e sai correndo da sala de aula, rumo ao intervalo.
– Estranha, ela. – comenta Lúcia, abrindo o pacote de salgadinhos ruidosamente.
– Não é da nossa conta, Lu – grunhe Helen em resposta.


“A Teoria do Caos é uma das leis mais importantes do universo. Ela se baseia no fato de que uma coisa muito pequena pode mudar o curso de uma vida inteira – talvez até mesmo o curso do próprio universo –, ao desencadear uma série de acontecimentos únicos.”
Termino de copiar a matéria e imediatamente viro para trás, para atender Lúcia. Ela sempre é a primeira de nós três a terminar de copiar, e fica muito nervosa quando demoramos muito. Já está me encarando com aquele típico olhar de reprovação: “nossa, você me fez ficar quase quinze minutos em silêncio absoluto!”.
– Gostei dessa matéria – digo, abrindo um sorriso – não consigo parar de pensar em quais coisas eu fiz que fizeram a minha vida ser como é hoje.
– Nem precisa ser algo que você fez. Pode ser algo que eu fiz... Até mesmo algo que ela fez. – diz, indicando Marta com a cabeça. Ela está sentada nos fundos, agora. Aparentemente, não estava muito confortável na primeira carteira.
Arrisco uma olhada aprofundada. Ela ostenta olheiras abaixo dos olhos, e parece mais abatida do que antes. Faz um mês que estudamos juntas e o único diálogo que tivemos foi há eras atrás, sobre um filme que estava passando no cinema.
O professor de química diz que as notas dela estão caindo.


Mesmo com o laranja alegre e antidepressivo permeando a manhã de terça-feira, sinto melancolia. Minha visão está fixa em Marta, que anda devagar à nossa frente.
– Eu tava pensando em usar dreds – dizia Lúcia, e eu tentei prestar atenção.
– Eu gosto desse Black Power que você usa – responde Helen.
– Bem, eu também. É só que...
Não consegui mais me focar. O movimento do cabelo de Marta, cheio do laranja do nascer do sol, volta a pegar toda a minha atenção para si. Ela parou de cortá-lo, e agora ele já está bem grande.
Parece que a cromoterapia do laranja não funciona com ela.
Ela parece tão triste.


Faz dois meses que Marta foi transferida.
Todos já saíram da sala, menos ela e eu. Lúcia e Helen foram na minha frente, enquanto eu fiquei para apagar o quadro e arrumar o meu material. Elas precisam chegar cedo em casa, nas quartas-feiras.
Paro o que estou fazendo e olho para a última carteira da última fileira. Hoje, Marta parece em pânico. Os olhos estão arregalados, e suas pernas tremem um pouco. Ela está completamente recostada na parede.
Não consigo me segurar – vou até ela.
– Hm... Tudo bem?
“Uau, que coisa mais idiota pra se falar. É bem óbvio que não está tudo bem”, caçoo de mim mesma, com raiva. Eu sempre consigo melar as coisas. Droga.
Ela engole em seco e me encara como se eu fosse devorá-la. Me afasto um pouco, para dar-lhe mais espaço.
Ela responde com um aceno.
– Você não vai pra casa, hoje?
– Vou. – ela balbucia em resposta.
Ela parece bem mal. Fico preocupada.
– Quer que eu te acompanhe?
– Não.
Penso em insistir, mas aquilo seria ruim da minha parte. Ela pode pensar que eu quero fazer algo com ela. Ou vai ver ela quer um tempo sozinha, e eu estou atrapalhando.
Empurro para o fundo da mente a sensação ruim que surge em meu peito.
– Bem... Bom dia, Marta.
– Dia... Vera.
Fico surpresa – é a primeira vez que ela me chama pelo nome. É a primeira vez que ela chama qualquer pessoa pelo nome.
Penso em olhar para trás. Paro por um segundo. Depois me lembro que ela quer o espaço dela, pego a minha mochila e saio da sala. Preciso tentar alcançar Lúcia e Helen para entregar as respostas do dever de matemática.


O laranja bate na grama abaixo de mim. Eu a encaro fixamente, sem coragem para erguer a cabeça.
Não é o laranja do nascer do sol. É o laranja do pôr-do-sol. E eu não estou indo para a escola – na verdade, eu estou de joelhos no chão, nos fundos do único cemitério da cidade, sozinha com as lápides.
À minha frente, está o túmulo de Marta S. Martins.
Foi há três dias atrás que eu percebi que Marta estava assustada, quase em pânico.
Foi há três dias atrás que eu me ofereci para levá-la em casa.
Foi há três dias atrás que ela me chamou pelo nome.
Foi há três dias atrás que ela se matou.
Talvez eu devesse ter feito algo. Talvez eu devesse ter insistido para acompanhá-la. Era tão óbvio que algo estava errado com ela, mas mesmo assim eu preferi ignorar. O sentimento de culpa me sufoca.
Helen e Lúcia mandam mensagens de texto para mim de cinco em cinco segundos. Eu saí correndo quando fui avisada do real motivo por trás do sumiço de Marta, e encontrei o túmulo sozinha. As duas devem estar preocupadas, mas agora eu preciso ficar sozinha.
Talvez aquele nome – “Vera” – tenha sido um pedido de socorro. Talvez eu pudesse tê-la impedido de fazer aquilo. Talvez eu pudesse tê-la salvado.
Eu fui a “Teoria do Caos” de Marta. Eu nunca vou saber o que poderia ter acontecido – nunca. Porque ela está morta, e minhas escolhas influenciaram nisso. Eu não posso voltar atrás.
Esse laranja que invade o cemitério e bate na lápide não é o laranja do qual Lúcia nos falou. Ele não é alegre e antidepressivo e não remete ao verão. Enquanto observo a cor bater em todas as superfícies, lembro do cabelo de Marta à luz do nascer do sol.
Laranja é a cor mais triste do mundo.
Eu choro.

3 comentários:

  1. Um texto tão bem escrito...! Uma vez lido o primeiro parágrafo, impossível não ler avidamente todos os outros até o final. E que final! Confesso que fiquei bastante surpresa com ele, mas não acho que Vera tenha tido alguma culpa no ocorrido (apesar de que, no lugar dela, eu também me sentiria culpada). Coisas ruins acontecem, e quase nunca podemos evitá-las.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Uau! Esse texto é simplesmente incrível! É tão tocante, e eu queria que não acabasse. O final foi totalmente inesperado, e admito que agora estou bem curiosa para saber o que levou Marta a se suicidar. Parabéns pelo trabalho!

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