15 setembro 2015

Loucura multicor




Uma mesa de chá está posta, e para muito mais do que três pessoas. Talvez seja uma festa privada, mas mesmo assim me acho no direito de sentar numa banquinho à esquerda da sua cabeceira. A cabeceira dele está um pouco violenta, gritando insultos e atirando xícaras de chá – melhor não arriscar.
Você serve chá para si mesmo calmamente, e parece que eu não estou ali. Não me importo. Faço a música ressoar cada vez mais alto em meus ouvidos, apreciando a batida eletrônica, enquanto jogo alguns cubos de açúcar dentro da minha xícara. É melhor tomar mais chá do que nenhum, afinal de contas.
Todos chamam meu nome, e os afasto com um gesto. As luzes coloridas saem de foco enquanto dou atenção exclusiva ao homem de cartola sentado à cabeceira.
– Um corvo não se parece com uma escrivaninha, mas talvez se pareça com você – diz ele, com um sorriso, girando a cartola por entre os dedos. Ela muda de cor de forma alucinante, e às vezes tenho a impressão de que ganha dentes afiados perto da borda.
A Lebre solta uma risada alucinada, rasgando sua jaqueta e jogando-a no chão. O Caxinguelê desapareceu dentro de um dos bules, e eu espero que ele não esteja se afogando novamente, ou teremos muito trabalho.
Sirvo chá para mim. Olho o líquido que tremeluz dentro da xícara decorada.
– Qual é o sabor deste? – pergunto, segurando a peça cuidadosamente pela asa de porcelana. A grama sob meus pés cresce cada vez mais, tentando prender-me ali, de forma que preciso sacudir as pernas.
O Chapeleiro sorri, e posso ver seus olhos mudarem de cor enquanto ele se levanta. Ele toma a xícara da minha mão com delicadeza:
– Este é chá de Whisky. Querida Alice, existem coisas mais doces que esta – comentou, pegando um outro bule. Ele despeja habilmente o conteúdo roxo dentro da minha xícara já cheia, fazendo-a transbordar um pouco e manchar meu vestido. As manchas sorriem provocantemente para mim.
Eu bebo. A mistura de chá de whisky com chá de vinho desce pela minha garganta, queimando-a e provocando cócegas. Mas está doce, graças aos cubos de açúcar ali colocados anteriormente.
O Chapeleiro me observa. Acho que sei o que ele está pensado.
– Está ficando racional outra vez – começo, num murmúrio. Ele estica o sorriso travesso, sentando-se na borda da mesa, bem à minha frente – uma dose de loucura, por favor.
Ele inclina-se para mim. Estou tão distraída que deixo a grama prender minhas pernas, impossibilitando-me de sair. Mas não importa. Eu não quero ir a lugar algum.
As cores mudam outra vez, deixando-me um pouco tonta. As mãos dele percorrem meus braços, e eu deixo cair a xícara. Ela cai no abismo, e sei que nunca mais a verei.
A música faz o ar tremeluzir. Ao fundo, os gritos da Lebre tornam-se cada vez mais distantes e o País das Maravilhas se distorce, provocando em mim uma sobrecarga sensorial que me deixa cada vez mais alerta. Sigo o coelho, caio dentro do abismo, tropeço nos olhos multicores, as flores tiram meu ar – e eu peço por mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário