14 outubro 2015

Chamado


 
Andando, andando, andando. Meus sapatos lustrados, fechados como os de uma boneca, pisam em gravetos e fazem barulho.
Cansada de andar, sempre tão cansada de andar. As árvores lançam sombras por toda parte. Às vezes parece alguém atrás de mim, caminhando sem emoção. Eu sou só uma criança, e eu fico assustada. “Não faça isso”, digo, mas não há ninguém para ouvir.
Tiro um doce do meu bolso. Não pode resolver todas as coisas, mas pode deixar um gosto bom na boca. Eu abandono a embalagem cor de rosa no chão. Fico com sede. Não foi minha culpa – você entende? Eu estou nessa floresta escura, eu preciso de doce.
Não há sol, mas eu estou com calor. Talvez eu deva tirar esse casaco. Depois de desabotoá-lo, percebo que é muito pesado. Meus braços não são tão fortes, e eu não posso carregá-lo. Ele é da minha cor favorita, mas eu preciso deixá-lo para trás. Reviro-o antes, e encontro apenas uma moeda. O vestido não tem bolsos, então eu a deixo cair no chão.
Calor, calor.
Andando, andando.
Hey, você não está com fome?
Eu estou com sede.
Estou sozinha aqui. Você não sente muito por mim?
Hey?
Tão escuro, tão escuro. Eu não sei contar, mas acho que já se passaram muitas horas. Muitas, muitas delas. O sol devia ter aparecido. Mas ele não está aqui, e eu estou no escuro.
Ainda está calor. Se a floresta é tão longa, eu deveria pensar em solucionar esse problema. Eu não posso andar sentindo tanto calor. Se eu deixar o vestido para trás, será um problema?
Você não pode me dar uma opinião sobre isso?
Será que vai fazer frio?
Será que eu consigo ficar sem o vestido?
Hey...?
Tiro o vestido. Também ele é da minha cor favorita, e eu sinto muito em deixá-lo para trás. Com as pontas dos dedos, retiro alguns de seus laços para colocar no meu cabelo. Eu ainda posso levar alguma coisa.
Andando, andando.
Calor, calor.
Sede, sede.
Você não fala nunca?
Estou cansada de ficar aqui sozinha.
Meus sapatos lustrados fazem ainda mais barulho do que antes.
Você reparou? Parece que as sombras estão sorrindo. É assustador. Fique comigo. Não vá embora. Fale comigo. Hey.
Calor, calor.
Andando, andando.
Chorando, chorando.
Minhas meias compridas estão me incomodando. Elas são bem lindas, você vê? Mas não são da minha cor favorita. Eu consigo deixá-la para trás com facilidade. Talvez agora faça menos calor.
Meus sapatos lustrados parecem um pouco frouxos, agora. Eu aperto a fivela. Deixa uma marca vermelha na pele e dói, mas pelo menos não vai mais sair. Né?
Hey.
Está tão calor.
Minhas pernas estão doendo tanto.
Diga algo. Não me deixe tão sozinha.
Se você ajudasse, eu não estaria chorando.
Eu deixei o meu casaco para trás.
Eu deixei o meu vestido para trás.
Eu deixei as minhas meias para trás.
Hey, ainda faz calor. Eu estou só de sapatos. O que eu faço para acabar com isso?
Eu não posso tirar os sapatos.
Me faça parar de chorar. Me faça parar de sentir calor. Faça as minhas pernas pararem de doer. Eu já estou tão sozinha.
Eu não quero deixar os meus sapatos para trás.
Porque você não se importa?
Porque você aceita tudo isso facilmente?
Porque você não está chorando?
Eu deixo os sapatos para trás.
Andar dói.
Andar sangra.
Fale comigo.
Hey.

7 comentários:

  1. Olá Ágata, muito boa tarde.
    :3 Eu estava andando pela blogosfera, e acabei topando com seu blog. E quero dizer: tem coisa mais poética que todo seu blog?
    Vi seus textos e gostei muito do que li. Principalmente sobre aquele mais comportamental sobre a sociedade. Foi maravilhoso o que vi, e você está certa! Por isso queria colocar, mesmo que no post errado uma experiência que tive meio boba. Eu sou insegura sobre várias coisas, e certo dia me perguntaram sobre comportamento, na verdade minha mãe que falou assim: "Porque você não coloca a bolsa de lado, Keiko?" E eu disse: "Por quê?" E ela falou: "Porque assim fica mais feminino!" Eu simplesmente coloquei a minha bolsa como sempre coloquei, a bolsa estava me abraçando de novo. Não vou ficar com dor no ombro pra agradar alguém, não vou usar maquiagem fora ocasiões especiais, não preciso de ter um namorado ou uma paquera para mostrar que sou uma menina feliz, é como eu sempre digo. Eu só quero melhorar a mim mesma para eu crescer como uma mulher feliz, o resto é consequência que eu vou correr atrás.
    Eu obedeço a minha mãe, ela é o amor da minha vida, mas fiz este singelo ato de rebeldia, se assim que eu posso dizer, porque precisei fazer aquilo.
    (Desculpe, foi inspiração do texto anterior.)

    E Ágata, esse texto seu é sobre a Alice? Estou certa? X3 Eu sou meia lenta para achar o significado das coisas!
    Mil beijos!

    (E desculpa o texto enorme!)

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    1. Gennnnte! ♥ Obrigadinha, sério! ♥ ♥ ♥ Tão bom saber que você gostou do blog. É o meu xodó. ♥

      Sabe que eu me identifiquei com o seu relato? Hoje em dia sou bem segura de mim mesma, mas até uns seis ou sete meses atrás não funcionava bem assim. Eu era insegura pra caramba. Tipo, chegava a ser ridículo mesmo - se você gritasse o meu nome, chamando por mim, eu ia ficar em dúvida se respondia ou não, porque, afinal de contas, e se não fosse pra mim? E se eu tivesse ouvido errado? Então eu me rebelava de jeitos bem sutis... Tipo essa história da bolsa. Hoje em dia eu me rebelo de jeitos tão diferentes, meu eu de antes ficaria bem surpreso...

      Na verdade, eu gosto de deixar a interpretação mais livre nas minhas crônicas. Quase todas elas tem mais de um sentido. Então pode ser sobre Alice, pode não ser - o que você quiser. ♥

      (Eu adoro textos enormes! Não se preocupe com isso... ♥)

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    2. woow! Mudanças boas a Ágata fez! Um pouco de ousadia não faz mal a ninguém, muitas vezes acrescenta em vez de ficar sempre andando em círculos né? É bom superar essas coisas né? Eu estou tentando mudar um pouco também, só preciso me policiar para me tornar menos crítica comigo mesma.

      :3 Que legal fazer um texto tão estruturado e legal dessa maneira!!! Quero poder comentar mais nos seus próximos textos!! ;D

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    3. sjdkfs, sim! ♥ Mudanças boas são necessárias, quando alguns anos se passam. Renovar as coisas é sempre bom. ♥

      Espero por você, então! ♥

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  2. Oi o/
    Estou chocada com esse texto :O realmente passou o desespero da menina. Gostei!
    Beijos.

    http://imperfeitaas.blogspot.com.br/

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  3. Oi, Ágatha. Senti uma pureza nesse seu texto. Amei, de verdade.
    Beijos
    mundoemcartsa.blogspot.com.br

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