07 outubro 2015

Memories #1







Quatro anos
Meados de 2004
Local da memória: escola


Entro na sala de aula quando ela já está cheia – e percebo, com um gemido interior, que a professora ainda não chegou. Carambolas. Vai ser um martírio.
Sento na minha cadeira tentando não olhar para ninguém. As carteiras são agrupadas em grupos de oito, o que torna um pouco difícil a tarefa de ignorar todos ao meu redor completamente.
Os meus colegas estão rindo e conversando. Ouço trechos das conversas, mas elas parecem bobas e sem sentido. Coisa de bebê.
Eles me deixam desconfortável. Parece que as paredes da sala estão... Como é que se diz? Prensando. Elas estão me prensando, e eu quero chorar. Quero, mas não choro. Eu sou grandinha demais pra chorar.
– Lara – chama uma das minhas colegas, e de repente meu estômago se revira. Na boca de qualquer um deles, o meu nome parece tão feio. Tenho vontade de nunca mais ser chamada assim.
– Sim – balbucio, apenas para que ela saiba que eu estou ouvindo.
Apesar de só ela estar falando comigo, todos os outros estão olhando. Enxeridos.
– Você tá sentada na carteira errada – comenta ela, e eu percebo que durante todo aquele tempo eles estavam tentando segurar o riso.
Olho para a carteira, e percebo que a minha foto e os meus dados pessoais – fixados ali com um negócio que parece uma daquelas fitas adesivas bem grandes – foram simplesmente substituídos pelas de outro aluno. Otávio, um loirinho. Chato. Tão chato quanto os outros.
Eles param de segurar o riso, e agora estão gargalhando histericamente, me encarando fixamente enquanto apontam para mim. Engulo qualquer coisa que estava prestes a sair pela minha boca, porque a mamãe sempre diz que eu devo ser educada, e saio dali bem rápido, levando os meus materiais junto.
Por que é que eles riem dessas coisas? Não tem graça. A gente só ri quando é engraçado, né?
Eu não devia estar com vergonha, porque é bobeira deles, mas eu estou. Quero cavar um buraco no chão e me enfiar nele.
Uma garota acena. Está no outro extremo da sala, e eu fico aliviada. Não vou precisar procurar a minha carteira no meio daqueles alunos bobos.
Sento ao lado dela. Ela tenta puxar alguma conversa. É bonitinha – tem cabelos castanho-escuros ondulados e compridos. Respondo com muita educação, porque a gente sempre deve responder com muita educação, mas uso poucas palavras. Não quero conversar com essa gente.
A professora chega. Talvez eu deva contar pra mamãe que ela sempre se atrasa. Eu vim aqui pra estudar, não pra ficar com esses alunos bobocas.

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